10 passos para abraçar a simplicidade

a simplicidade não é natural e exige esforço, pois implica conhecer muito bem aquilo de que estamos a falar. se conhecermos bem o assunto, a simplicidade deixa de ser um trabalho difícil.

conheci o trabalho de Edward de Bono algures em 2003 ou 2004 quando frequentava uma pós-graduação em gestão estratégica de recursos humanos. uns anos mais tarde, certifiquei-me na técnica dos seis chapéus do pensamento, com a qual aprendi muito e que interiorizei na minha prática no âmbito da filosofia para crianças - e na minha vida, em geral.

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Edward de Bono: uma referência

conheci o trabalho de Edward de Bono algures em 2003 ou 2004 quando frequentava uma pós-graduação em gestão estratégica de recursos humanos. uns anos mais tarde, certifiquei-me na técnica dos seis chapéus do pensamento, com a qual aprendi muito e que interiorizei na minha prática no âmbito da filosofia para crianças – e na minha vida, em geral.

o autor de Ensine os seus filhos a pensar acompanhou-me na minha dissertação de mestrado em filosofia para crianças, intitulada “Queres saber? Pergunta.”

em 1967, de Bono criou a noção de pensamento lateral:

Lateral Thinking is a set of processes that provides a deliberate, systematic way of thinking creatively that results in innovative thinking in a repeatable manner. While critical thinking is primarily concerned with judging the true value of statements and seeking errors. Lateral thinking is more concerned with the “movement value” of statements and ideas.

 

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simplicidade, o livro

há um livro menos conhecido de Edward de Bono que é uma belíssima inspiração para os tempos que vivemos, onde reinam os procedimentos complicados, a comunicação pouco clara, os processos que não são do conhecimento dos seus intervenientes.

esse livro chama-se Simplicidade e disponho da versão inglesa, publicada na Penguin Books (1999). tive oportunidade de recomendar este livro na conversa que tive com o Pedro Rebelo e que podem ver ou ouvir no seu canal youtube.

 

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simplicidade versus complexidade

a simplicidade parece ser inimiga de seriedade. as pessoas sérias usam palavras complexas e citam autores ou livros que só alguns conseguem ler, tendo em conta a sua complexidade.

o simples parece associado à palavra fácil e quando Edward de Bono diz “a simplicidade exige esforço”, parece que entra no campo do contraditório. se é simples, não deveria ser natural ou pelo menos não exigir esforço?

a simplicidade não é natural e exige esforço, pois implica conhecer muito bem aquilo de que estamos a falar. se conhecermos bem o assunto, a simplicidade deixa de ser um trabalho difícil.

(…) there is also the underlying fear that the role of the interpreter will no longer be necessary if the matter is simple enough for ordinary people to understand and use. Academics feel a great insecurity about this. (p. 67)

 

o caso da filosofia e da filosofia aplicada

a crítica que de Bono faz aos académicos é pertinente. vou partilhar um exemplo, o da filosofia aplicada, onde a filosofia para crianças e jovens se insere. afirmar e defender que a filosofia pode acontecer, pode ser praticada junto de crianças de 4 e 5 anos, parece ameaçar a complexidade e o elitismo que, durante tantos anos, se associou à filosofia.

os filósofos aplicados (ou filósofos práticos) foram acusados de estar a simplificar uma disciplina que se quer (entenda-se, que alguns querem) manter nas prateleiras das grandes universidades, às quais só alguns acedem.

 

simplicidade e 10 passos para colocar em prática

da leitura que fiz do livro, gostaria de salientar os 10 passos para colocar a simplicidade em prática, seja na vida pessoal, seja na vida profissional. Edward de Bono chama-lhe métodos, aproximações ou técnicas. do meu ponto de vista, chamar-lhe passos ajuda a visualizar que isto é um processo, uma caminhada e, acima de tudo, uma prática diária.

 

vamos a isto?

  • fazer uma revisão histórica

quando nos deparamos com um processo ou um objecto que “sempre se fez assim” ou “sempre esteve ali”, é importante perceber qual o papel que já teve e, sobretudo, perguntar: “isto ainda faz falta?”

 

  • cortar, para ficar com o essencial

neste ponto é importante livrar-mo-nos do que é acessório e ficar com o essencial. aquilo cuja existência não tem justificação, deve ser abandonado.

 

  • ouvir

é importante ouvir as pessoas que se encontram no fio da navalha, a tomar decisões em ambientes em que é necessário agir rapidamente. talvez essas pessoas possam ter uma visão e uma experiência daquilo que é ou não é necessário.

 

  • combinar

neste ponto, de Bono refere-se à actividade de combinar funções diferentes que se encontram separadas. de Bono usa mesmo a expressão “matar dois coelhos de uma só cajadada”.

 

  • extrair conceitos

trata-se da capacidade de extrair, definir e redesenhar conceitos, procurando a sua forma mais simples.

 

  • admitir excepções

certamente vamos encontrar situações que se vão revelar excepções no processo. para evitarmos o complexo que é imaginar todas as possibilidades, deixamos estas situações para um procedimento especial, pensado à medida.

 

  • re-estruturar

re-estruturar vai mais longe do que o processo de corte. nesta fase estamos a ser um pouco mais radicais e a pensar toda a estrutura.

 

  • começar do zero

este começar do zero traduz-se em dar um passo atrás, começar de novo, ignorando a situação presente. neste passo pensamos em torno de valores chave e de prioridades. só depois fazemos a comparação com a situação presente.

 

  • fatiar

pegamos na situação e cortamos a mesma às fatias, para ser mais simples trabalhar com cada uma delas.

 

  • praticar a po (provocação)

em inglês, este passo chama-se “provocative amputation” e implica abdicar de cada um dos elementos para perceber se o sistema pode funcionar sem esse elemento. este é o elemento po (provocação na operação) que decorre do pensamento lateral.

 

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por que razão “fugimos” da simplicidade?

The easiest way to be “superior” is to pretend to understand what others cannot understand. For that you need complexity. (p. 66)

 

há quem adore a complexidade e, por oposição, não seja fã da simplicidade. esta dá trabalho, como já aqui foi afirmado, no seguimento da leitura do texto de Edward de Bono.

depois, há a questão do hábito, da rotina: estamos habituados a fazer as coisas daquela maneira e mudar exige que eu páre para pensar, reveja procedimentos para avaliar da sua necessidade – todos aqueles passos que de Bono enunciou. isto consome tempo. na espuma dos dias preferimos perder tempo a fazer o mesmo da mesma maneira, em vez de investir tempo em fazer o mesmo, de forma simples.

para muitos admitir que há uma forma mais simples de fazer algo é assumir que se é tonto ou que não se viu algo que era óbvio, de tão simples que era.

em tempos, durante uma oficina de filosofia, Oscar Brenifier afirmou: “a filosofia serve para dizer coisas óbvias.”  eu acrescento: e simples.

 

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se considera que a simplicidade é um desafio para a sua empresa e precisa de ajuda para a implementar, contacte-me. prometo trabalhar consigo no caminho da simplicidade, lado a lado. falamos? info@joanarita.eu