Significado máximo, meios mínimos

Recentemente, após ter passado uma semana com acesso bastante limitado a emails ou redes sociais, dei por mim a passar mais tempo a ler livros, ouvir podcasts, fazer caminhadas longas e falar mais livremente com as pessoas. Várias perspectivas ao longo dos anos têm sugerido a necessidade de nos desconectarmos mais frequentemente e criar conexões […]

Significado máximo, meios mínimos

Eu adoro usar redes sociais (especialmente o Twitter). E eu adoro email: receber conteúdos por email, e escrever para email (por exemplo para a minha newsletter semanal).

Recentemente, após ter passado uma semana com acesso bastante limitado a emails ou redes sociais, dei por mim a passar mais tempo a ler livros, ouvir podcasts, fazer caminhadas longas e falar mais livremente com as pessoas. Várias perspectivas ao longo dos anos têm sugerido a necessidade de nos desconectarmos mais frequentemente e criar conexões com os outros, e claramente há um benefício em fazê-lo, mas a minha cabeça foi para um sítio diferente.

 

Esta mudança em consumo de media – que efetivamente, hoje em dia, significa uma mudança na nossa rotina diária – fez-me pensar na economia do nosso próprio tempo. E o que isso significa para os resultados que esperamos ao fim de cada dia passado.

 

Houve algumas coisas que me influenciaram nestes últimos meses, até ter chegado a este ponto de reconhecer que isto é um tema importante. A primeira foi uma quebra emocional no final do ano passado, que me levou a voltar a terapia e re-avaliar todo o tipo de hábitos, atitudes e decisões de vida. A segunda foi ter passado algum tempo com o livro Digital Minimalism to Cal Newport, que para ser honesto é quanto muito um blog post alongado, mas ainda assim tem ideias importantes. E a terceira foi uma citação do designer gráfico Abram Games, bastante influente no século XX:

 

“Significado máximo, meios mínimos.” (“Maximum meaning, minimum means.”)

 

Ao longo dos anos, tenho ganho alergias a algumas coisas. Uma delas é a necessidade de usarmos palavras, artigos ou livros grandes e complicados para chegar a conclusões simples. Sim, reconheço que a simplicidade leva tempo e esforço, mas isso devia refletir-se no conteúdo assim como no formato. Esta citação – “significado máximo, meios mínimos” – é uma mestria de ambos.

 

Mas voltemos a email e redes sociais. Eu não acredito que uma desconexão total é a solução para nos livrarmos da confusão atencional, emocional e societal que arranjamos maneira de criar para nós próprios. Mas acredito que estamos num momento crucial de reflexão, e regulação, que precisa de acontecer tanto a nível sistémico (por exemplo, através de pressões legais sobre o que acontece quando uma plataforma digital ultrapassa um determinado limite do que é aceitável) como a nível pessoal (por exemplo, através de mais conversas sobre para que realmente servem estas ferramentas digitais).

 

E então, a meio de uma dessas caminhadas longas ao longo do rio, apercebi-me de uma coisa. Eu adoro usar redes sociais (especialmente o Twitter). E eu adoro email: receber conteúdos por email, e escrever para email (por exemplo para a minha newsletter semanal). Mas por causa da minha personalidade (sempre fui tudo ou nada), há um risco de passar demasiado tempo (como passei nos últimos dez anos) obcecado com ambos. O que cria vício e ansiedade, precisamente as coisas que alguém com personalidade obsessiva-compulsiva devia evitar.

 

Durante essa caminhada longa e lenta, ao observar pessoas enquanto ouvia algum podcast que agora já esqueci, apercebi-me de algo novo (pelo menos, para mim). Adoro escrever para o Twitter e email, mas se passar menos tempo no Twitter e no email e mais tempo com livros, podcasts, pessoas e a vida real, os meus tweets e emails têm muito mais qualidade.

 

E é aí que entra a parte económica da coisa. Porque eu nunca fui muito bom a distinguir entre os meios e os fins, e acho que temos aqui algo que nos ajuda a perceber o papel destas ferramentas nas nossas vidas. Será que elas são fins por si só – uma única fonte de distração, informação ou entretenimento – ou são meios para outra coisa – conexão, aumentar perfil pessoal, partilha de ideias? Que materiais em bruto entram, e que produto final sai?

 

Por outras palavras, quais são os meios mínimos que me dão o significado máximo?

 

Ao longo dos últimos meses, tenho feito uma purga as minhas ferramentas e referências digitais. Deixei de seguir 95% de tudo o que seguia no Twitter (só sigo 69 contas agora). Estou a fazer o mesmo com email. E a seguir vem o YouTube, onde sigo demasiados canais que me foram recomendados uma vez e agora esqueço-me porque. O propósito não é ficar menos dependente destas coisas, mas sim usá-las por razões específicas e depois diversificar a minha aprendizagem noutros lugares. Tipo livros. Tipo podcasts, ou música. Tipo o ato de convidar pessoas para jantar lá em casa e não sentir que tenho coisas melhores para fazer (porque provavelmente não tenho).

 

Tipo, sei lá, sonhar acordado? Lembram-se de quando fazíamos isso?

 

Algo que devia reiterar é que não estou a defender que toda a gente deva fazer isto. Cada um faz o que mais lhe convém. Algumas pessoas adoram o frenesim. Outros – tipo eu, mas suspeito que não sou o único – começaram a achar que é demasiado. Por isso, por agora, estou a manter emails e redes sociais fora do meu telemóvel, que por sua vez existe sobretudo para ouvir bons podcasts e música (bendito Spotify) e ler bons livros (bendito Kindle). Só vou usar email e redes sociais num computador desktop por agora, até porque dá-me uma experiência de navegação muito melhor (especialmente quando quero abrir sete links de uma só vez).

 

Num mundo de informação e complexidade infinitas, “significado máximo, meios mínimos” talvez seja o mantra de que alguns de nós têm andado a espera. E o mais belo disto tudo? É que é uma ideia bem antiga que sobreviveu a maior parte de um século, e não uma tendência nova da qual toda a gente está a falar, até que venha a próxima coisa de que toda a gente vai falar. Mas podemos falar dos problemas de uma cultura descartável (em contraste com os benefícios de ideias “velhas”) noutro post mais tarde.

 

Quem é o Rob?

O Rob é senior strategist em Londres e escreve uma newsletter semanal sobre filosofia chamada Salmon Theory, lida por pessoas em todo o mundo que trabalham na Ogilvy, Wolff Olins, MullenLowe, BBDO, VMLY&R, Google, Genius Steals e outros. Podes subscrever e receber as 10 melhores edições do ano passado aqui.